O conhecimento que temos sobre as práticas culturais de outros povos é muito raso, revelando o quão superficiais somos sobre a nossa própria cultura, não procuramos entender como realmente nos organizamos e do porque temos tais interpretações a respeito de práticas emblemáticas do cotidiano.
Assim, conforme o texto apresentado, para o antropólogo lidar com as diferenças culturais torna-se menos confrontante do que para nós. Em nosso caso o senso comum nos dá a perspectiva de que nossa maneira de vida é a mais correta e qualquer coisa que fuja desse padrão é vista como exótica, estranha e por fim excluída. Por isso, há um grande choque inicial quando lemos a primeira vez sobre o artigo: Ritos corporais entre os Nacirema, um povo norte-americano que segue fielmente seus rituais.
Como descrito no texto, o rito corporal que é desempenhado pelos homens como “raspar e lacerar a superfície da face com instrumento afiado”, nada mais é que o simples ato de se barbear, rito costumeiro de higiene pessoal. Assim como nos trechos “o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. (...) atividades excretoras e o banho (...) são realizados apenas no segredo do santuário doméstico.”, o autor descreve nossos atos de higiene pessoal e excreção que são feitas diariamente apenas no secreto de nosso banheiro.
Em um dos seus livros, Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman discorre a respeito de cincos tópicos: emancipação, individualidade, tempo e espaço, o trabalho e a comunidade. Ele trata de que a modernidade liquida dá uma abertura para que a hospitalidade de lugar á crítica, onde o agente passivo agora é ativo, sendo assim questiona e reflete sobre as ações do porque das coisas e do individuo sobre a sociedade. Ao contrário da modernidade sólida, que é engessada e não consegue acompanhar as novas formas, ou seja, exercendo um totalitarismo.
Foucault em sua obra intitulada “Introdução à vida não fascista”, sugere uma forma de nos libertarmos dessas regras impostas pelo sistema.
“Essa arte de viver contrária a todas as formas de fascismo, que sejam elas já instaladas ou próximas de ser, é acompanhada de um certo número de princípios essenciais, que eu resumiria da seguinte maneira se eu devesse fazer desse grande livro um manual ou um guia da vida cotidiana:
- Libere a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante; - Faça crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, mais do que por subdivisão e hierarquização piramidal;
- Libere-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental, por um longo tempo, sacralizou como forma do
poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo, não é sedentário, mas nômade;
- Não imagine que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga, nas formas da representação) que possui uma força revolucionária;
- Não utilize o pensamento para dar a uma prática política um valor de verdade; nem a ação política, para desacreditar um pensamento, como se ele fosse apenas pura especulação. Utilize a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política;
- Não exija da ação política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo, tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é o produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação, o deslocamento e os diversos agenciamentos. O grupo não deve ser o laço orgânico que une os indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”;
- Não caia de amores pelo poder”. (FOUCAULT, 1988)
O ponto o qual buscamos analisar aqui é o indivíduo e a sua busca pela auto realização e seu comportamento na sociedade. O Nacirema é um ser inserido na sua sociedade, compartilha daquela organização e age a favor do seu próprio bem dentro do grupo, assim como nós estamos expostos e influenciados por tecnologia, mídia e outros poderes, também assim agem como sujeito líquido, eles escolhem normas a serem seguidas tidas como verdade para eles.
Qual a diferença entre nosso padrão de correto e a deles? Agimos influenciados também por uma organização e hierarquia de interesses, diluídos as vontades do que a massa realmente precisa. É necessário primeiro compreendermos como agimos e de onde procede toda nossa estrutura como comunidade para podermos então estudar outras sem estar com os olhos vendados e os dedos apontados com sub julgamentos.
Procurando trazer as semelhanças de estruturação das duas culturas, notamos que as práticas Nacirema também por sua vez se incluem na nossa. Afinal, o foco das atividades desse povo é o corpo humano, como segundo diz o artigo: “(...) cuja aparência e saúde surgem como interesse dominante no ethos desse povo (...)”; E hoje vivemos dias de valorização extrema e prioritária da nossa auto imagem, como se isso revela-se o mais importante como ser humano, é uma busca desenfreada pela jovialidade e pelo status da moda.
Valores superficiais tomaram tanto espaço que é quase absurdo falar-se de conexões reais, como Bauman mesmo explica em outro livro que na verdade o ‘on’ que tanto falamos é o encontro olhos nos olhos, o contato físico e o ‘off’ seria o estar conectado. Perdemos totalmente nossos valores reais, buscado e colocando a aparência ideal num pedestal. Isso não se assemelha às práticas Nacirema, quanto aos rituais de seus corpos ?
Outro ponto é o baú que eles constroem e cultuam dentro de suas casas, nosso baú seria nossas velhas conhecidas ‘caixas de remédio’, no qual qualquer dorzinha nos auto medicamos, mais uma vez paralelo com a cultura tão estranha dos Nacirema visto á primeira vista. E o que dizer então do profissional ‘ouvinte’ que facilmente podemos caracterizar como psicólogos e terapeutas, mostrando uma geração insatisfeita e paralisada com seus medos e traumas.
Outro ponto é o baú que eles constroem e cultuam dentro de suas casas, nosso baú seria nossas velhas conhecidas ‘caixas de remédio’, no qual qualquer dorzinha nos auto medicamos, mais uma vez paralelo com a cultura tão estranha dos Nacirema visto á primeira vista. E o que dizer então do profissional ‘ouvinte’ que facilmente podemos caracterizar como psicólogos e terapeutas, mostrando uma geração insatisfeita e paralisada com seus medos e traumas.
Se então fizermos uma pausa do que já vimos até agora, podemos lembrar-nos da metáfora de Platão, O mito da Caverna. Nessa história digamos, o autor fala sobre prisioneiros que viviam numa caverna e não conheciam nada além daquilo, até que um indivíduo consegue sair e contemplar a amplitude do que havia lá fora, volta para avisar seus companheiros, porém estes não acreditam, pois estão contagiados e certos de que aquilo que vivem é único e correto.
Vivemos hoje com uma geração alienada e com valores distorcidos, tem a liberdade para provar, investigar, ousar novas técnicas, mas preferem ficar acomodados no escuro e quentinho dessa caverna. Assim, como esse prisioneiro na história de Platão teve que se acostumar com o impacto da luz do dia, também nós devemos arriscar e provar mais do que há lá fora. Conhecer e sair um pouco dessas condições impostas, perceber e buscar novas estratégias e não simplesmente aceitar como indivíduos passivos.
Numa leitura descuidada deste texto sentimos, repulsa por nos parecer tão estranho à nossa cultura. No entanto, ao fazermos uma leitura mais atenta aos detalhes podemos observar o quão Nacirema somos nós e só percebemos o quanto estamos impregnados pela nossa própria forma de pensar quando fazemos esta análise e vemos o quanto a nossa cultura é como qualquer outra, simplesmente aprendida com suas esquisitices, tendo seus pontos positivos e negativos.
Este relato antropológico menciona a cultura dos Nacirema como se fosse estranha à nossa cultura, mas podemos observar que se trata tão somente da descrição dos nossos próprios costumes em uma linguagem etnográfica fazendo parecer que se trata de uma cultura estranha à nossa, mas em suma, nós somos os Nacirema.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FOUCAULT, Michel. Introdução à vida não facista. [Prefácio à edição americana do Anti-Édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari [trad. F. Durand Bogaert, N. York, Viking Press, 1977]. Republicado em M. Foucault Dits et Écrits, vol III (1976-1979). Paris: Gallimard, 1994. Extraído de Carlos Henrique de Escobar (org), Dossier Deleuze. Rio de Janeiro: Hólon Editorial, 1991. Tradução de Carmem Bello a partir do texto editado na revista Magazine Littéraire , n. 257, septembre, 1988.]
BAUMAN, Zigmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar: 2004
PLATÃO. A República. 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291

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